Faz-se necessário na atual conjuntura social, e por que não marginal,
o debate a cerca da violência vivida pelas mulheres dentro e fora dos ditos
“meios libertários”, sejam esses os intitulados como hardcore, punk, metal,
rock and roll ou qualquer outra segmentação que se faça necessário caracterizar.
Quero deixa bem claro
que em momento algum a minha intenção é em aflorar os mitos existentes por trás
do dito “ser feminino” que acaba funcionando como um “molde” incapacitante da
condição da mulher como detentora de sua autonomia, ainda que essa autonomia
lhe seja constantemente negada. Não se trata de atribuir as noções amplamente
difundidas pelo senso comum em relação à “fragilidade” do gênero feminino, mas
sim de trazer para a pauta os latentes traços da subalternidade e da constante
opressão vivida pelas mulheres, possibilitando uma reflexão em relação à
situação da mulher tanto nos “meios libertários” como na sociedade de uma forma
geral.
Muitos são os tópicos relevantes a essa discussão, mas neste
primeiro momento acho bastante pertinente manter no foco os fatos e atos
condicionantes às agressões físicas, verbais, psicológicas e financeiras, atribuídas
as mulheres.
Trazer para o debate dentro do “meio libertário” o assunto
da violência em relação à mulher é de fato chamar para uma discussão espinhosa
e cheia de ciladas e que por isso mesmo deve e precisa ser discutida e alertada,
uma vez que, esse tipo de violência encontra-se em um estado de naturalização,
omissão e culpabilização que faz com que cada vez mais, mulheres sejam silenciadas
e oprimidas em nome da moral, da honra e dos bons costumes do patriarcado
latentes no nosso meio.
Um dos conflitos dessa discussão é o fato de que, penso eu,
muitas garotas, ainda ficam confusas em relação à atitude a ser tomada na
ocorrência de uma situação de agressão, pois certamente a “postura” adotada irá
repercutir positiva ou negativamente no meio em que esta se relacione. Mas o
que viria a ser essa “postura”? Penso que esse é um dos momentos cruciais em
torno dessa discussão. Tive a oportunidade de observar alguns encadeamentos de
situações de agressão e a forma como alguns grupos/pessoas se comportavam
diante de tal situação. Houve casos em que mulheres agredidas por seu
companheiro (ou ex- companheiro) e que resolveram levar a público sua situação
de violência, acabaram sendo perversamente massacradas pelos (as) ditos (as)
“libertários” (as) que inseriam em seus discursos de ódio os mais variados termos
pejorativos possíveis chegando a chamar a agredida de “vadia”, “puta”,” infiel”,
entre tantas outras porcarias, legitimando assim a situação de violência que essas
se encontravam, ainda que essa situação tivessem tido como resultado
escoriações pelo corpo, sangramentos ocasionados por pancadas, traumas
psicológicos e etc.
Assim fica a pergunta.
Quais seriam os mecanismos disponíveis as mulheres dentro do “meio libertário” que se encontra em situação de violência? Deverá
essas legitimar a agressão sofrida silenciando sua dor deixando se legitimar
sua condição de violência sendo incentivada a pensar que silenciar fará com que
essa esteja agindo conforme sua autonomia? Ou deveriam essas mulheres se
utilizar dos falhos mecanismos do Estado e de suas leis, como a lei Maria da
Penha, para se fazer valer do confronto a esse tipo de violência? Sinceramente, essa é uma resposta que eu não
tenho, mas entendo que independente da escolha que cada uma tiver o importante
é não se manter em uma situação de violência.
Já tive a oportunidade de conviver com os dois lados da
história: numa situação a garota decidiu por agilizar um boicote contra o
agressor e acabou sendo ridicularizada e taxada como a “errada” da situação
enquanto o agressor saía de coitado na história. Num outro momento uma garota
decidiu por se valer da Lei Maria da Penha e isso garantiu a ela medidas
protetivas que mesmo não sendo lá muita coisa, de alguma forma “inibiu” as
atitudes do agressor, mas que também a expos a uma situação constrangedora
dentro do meio “libertário” sendo inúmeras vezes denominada como legitimadora
das amarras do Estado.
Ou seja, partindo dessa realidade caótica em que as
possibilidades são um tanto limitadas, o que poderão fazer as mulheres
agredidas no dito meio libertário para fazer valer sua dignidade enquanto
mulher, fazer valer sua liberdade, seus desejos e enfim sua autêntica
autonomia? Sinceramente não tenho essa resposta e penso que muito ainda levará
para que eu possa desenvolver alguma linha de pensamento que fuja do silêncio
velado dos solos de guitarras ou dos contrastes estatais como mecanismo de
sobrevivência.
Quantas de nós ainda terão de ser expostas, invadidas,
ignoradas, banalizadas, humilhadas e ridicularizadas? Quantas de nós ainda terão
de conviver com o medo, o trauma e a vergonha de uma agressão? Quantas de nós
ainda terão que conviver silenciosamente com as sequelas do patriarcado
cravadas de tal forma a sucumbir toda a sua existência?
É preciso sair da zona de conforto e começar a confrontar
essa realidade latente a que fomos submetidas. Questionar e agir na tentativa
de se construir ou fortalecer ideias que possam desarticular esse processo
violento e silencioso que acomete todas as mulheres, dentro e fora dos “meios
libertários”. Certamente que esta é uma discussão que não se finda por aqui,
mas que esse seja o primeiro passo, agora cabe a você a continuidade dessa
ideia! Por uma cena plural, atuante e que respeite as mulheres como seres
humanos e não como pedaços de carne ou corpos vazios a serviço do patriarcado.
(Valéria)Zine
Mente Engatilhada

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